Whatever it may be claimed with meaning, what we call "Frosted Horses" is not a band. It doesn't even exists. But the short story of Cavalos No Gelo belongs to a real place that slowly disappears as the ice melts. Laughing stock of some moanfull jokes about sketches of Jonathan Swift's Houyhnhnmsland, or others not so funny about threats to some kind or way of life, about our joyful hope for future. The place is called The Silver Arm and the Neck of Land. For those who know or live in Lisbon, Braço de Prata is an old railway station looking for Tagus. But the place we stand is on the other side, above the river, behind marshy swamps, pines, cork oaks, bulls and horses. Leziria is Cavalos No Gelo homeland where we call for some people's name: Miguel, Margarida, Rosa, Antonieta, o Senhor João...
What was endured was some images of the past. They see and hear the city in the distance - o céu solar de Lisboa - but the sparks of days and nights are with them. The music shares their living memories and our present life, there and abroad.
cavalos no gelo - talvez um homem só caminha entre as árvores
Luminária do crepúsculo. numa tarde de domingo de agosto, a visão da adema foi a passagem do dia glorioso, a manifestação da conduta mais gentil da oferta do tempo, do olhar generoso que não espera mais de si que o seu próprio acontecimento. são as pequenas colinas que se estendem para a terra plana da lezÃria: da amoreira à s fontaÃnhas ergue-se um vale que foi outrora o pântano e a margem extrema do rio. é um enigma das formas que se repetem, que tocam as imagens invisÃveis e os encontros felizes marcados por cambiantes, pequenos movimentos, pequenas percepções que aguardam o momento oportuno para expandir. um desperdÃcio de coisas que existem mas também um sistema onde tudo está no seu lugar. a natureza que nos apela não é enganadora mas transparente para si própria, está certa do seu sentido e das suas dádivas. dá sinais velados do brilho à mais selvagem das criaturas. são os vestÃgios que designam o rumo que ultrapassa a notÃcia do que é para nós pouco mais que astúcia. e o que há nessa manha da natureza não é senão o que é para si a sua doação mais autêntica, a pureza em excesso de marcas na exclusão das aptidões humanas, que se converteram por sua vez na inaptidão em compreender o seu estilo, em acompanhar o seu ritmo nos compassos certeiros do tempo. a tradução desse sentido começa por ser dada na distinção dos pequenos pormenores: na presença circular das trepadeiras nas arcadas da casa, são guardiões da porta um vaso com sardinheiras entre púrpura e vermelho, e um outro vaso com patas-de-cavalo tão luzidias que quase parecem espelhos. e logo surge à vista o velho limoeiro nos contrastes do verde-escuro e do verde-claro com o cheiro das formigas no verão seco. depois dos passos, é a sombra da figueira gigante, de longos anos fraterna das ramagens do sobreiro robusto que protege a casa da contra-luz. na descida da pequena encosta a caminho do poço estão as oliveiras. ao fundo, de costas para o sol, avistamos a adema, a silhueta de uma outra casa numa ilha de árvores, no meio da lezÃria que corteja o nosso monte. as ondas do feno projectam-se até lá na pequena brisa do estio, porque o tejo oculta-se na distância, é agora uma chama mais estreita do céu aberto. a imagem singular concentra por antecipação o olhar livre dos constrangimentos. mas é tambem um modo de aparecer com um poder transformador. não é uma poesia na poeira das circustâncias e nem uma terra semeada por nostalgia, muito menos a dissonância da promessa integral da vida. é apenas um momento na inscrição eterna de uma visão. a pequena iluminura no inÃcio do livro.
Agora nós. algumas notas soltas da memória daqueles dias. os silos no monte de braço de prata guardam as sementes e as forragens para o inverno. tudo é inventariado no "livro das miudezas": a espera recatada das lebres entre as silvas, os cardos que crescem, a hora dos figos onde está o velho baloiço de madeira, as novas e velhas criaturas que nasceram na protecção do monte. os silos são as torres no meio das árvores que dão sombra aos dias de bronze. aguardam alguém que chega a trote da cidade para dar as boas notÃcias e é quem faz o gesto que traz o que é preciso para a semana. pedra-pomes, sabão azul-e-branco, petróleo, arame e pregos para as colmeias de cortiça, um saco com desenhos e uma torta de laranja de quem não pode vir passar uns dias connosco mas manda muitas saudades. de resto, temos tudo por cá: o mel, o leite, o pão, a horta e o pomar silvestre, oliveiras carregadas de azeitonas, hortelã selvagem no meio dos espinheiros. a astúcia do isolamento aproveita os seus talentos para raspar os picos dos cardos e lavar os talos das tengarrinhas para a sopa do jantar. na casa do monte, a lareira já está acesa, assim é desde as tardes de novembro até aos alvores de março. mas durante o ano inteiro, nas horas do meio, enquanto não se levam os talheres para a mesa, abre-se sempre o livro para escrever o dia. intensifica-se o coração com a música do crepúsculo. há uma guitarra velha, gasta das cantilenas e das elegias que se repetem nas gerações. estão de regresso os maiorais das amoreiras. dizem "boa noite e até amanhã!". guardam as cabaças, os arreios e as selas no celeiro da palha. e soltam os cavalos para descançar.
A espuma nos freios dissolve-se na água que corre na foz. a cabeçada e as rédeas são tiradas para que os animais bebam. eles mostram-nos na sede o olhar benévolo, o corpo quase imóvel de que é feita a breve espera. só os pequenos espasmos nas patas e os movimentos da cauda afastam as moscas que os cercam. o pelo lustroso reflecte o brilho do sol e os maiorais aguardam com os cavalos que nos levam ao monte. uma romaria equestre louvada nos confins da lezÃria. são homens consagrados à dureza do chão calcado de pó. no peso das feições que mostram o rosto trigueiro, a pele curtida, as pálpebras e as rugas contraÃdas pela claridade solar. escondem a testa pálida nos chapéus que empunham para saudar. mortalhas com tabaco apertadas na aspereza de mãos secas, encardidas de saibro. e foi preciso falar, reclamar um atraso na demora do reparo. mas o que em nós habita traz-nos sempre de volta.
Com pés nos estribos e sela aparelhada, o avô monta o cavalo branco. tem a pelagem rasteira e a brandura de ânimo sem marca de esporas. todos os cavalos têm um nome que designa um temperamento. mas de que lhes serve o nome se ignoram a ciência incerta? de que nos serve abalar, com os passos elegantes do trote, se o cavalo não deter a plena estima que anuncia aos homens a aptidão do caminho? a natureza é matriarca. embala-nos à sombra da ignorância recolhida na divagação da sua inteligência soberana. pagamos o tributo de tentar travar o mundo sem resposta que nos preencha. na clareira extinta de um horizonte de incógnita.
Atrás das nossas costas ficam centelhas de água e luz que se prolongam até lisboa. a norte vemos vila franca que nos alcança como se fôssemos uma aresta do triângulo. a distância crescente do vale mostra ainda o fumo das cidades no outro lado do tejo. marca o contraste das margens que percorremos, no solo que pisamos, nos antÃpodas de aglomerados de casas. ali estivemos e aqui estamos, debaixo da alçada do tempo. no calor de outono que tomba na sesmaria de arbustos secos. à revelia de uma terra que ama o silêncio, os ciclos húmidos e os ciclos da seca, do nascimento e da morte, que quebram a manobra da fertilidade que os homens engendram, o modo adverso da recolha da vida. ali estivemos e aqui estamos. na pulsão mundana, em comunhão com o que apaga a tristeza transitória na presença de gente nos lugares que escolhemos. a despedida sem o aceno. o relógio de bolso parado nas horas.
Uma charrete traz a carga que veio connosco. leva a mulher e a criança, aos solavancos pela estrada de fendas no lodo seco e crateras da erosão da chuva. as poças de água são buracos do céu. e o chão a crosta que o protege. mas quando os cascos chapam na água, o lodo revolve manchas que se alastram de castanho e cinza no reflexo do azul tingido. há na carroça uma manta lobeira que tapa uma caixa esquecida com botões e um caderno vazio de folhas amarelas manchadas de argila. erguemos o mundo no papel amarrotado, conservamos o fôlego na definição das coisas, o encontro fortuÃto inscrito nas palavras. o desenho das letras deformadas são a sentinela do que nos espreita, o modo velado da realidade que persiste, na confusa e desmedida transgressão.
- ‘cha... caha... chacoteca! chaaarnn... charneca!’
- ‘soletra e escreve! aponta tudo, senão esqueces!’ - diz a avó.
- ‘não te bastas quando queres dar-te ao mundo! ele chama por ti quando menos esperas!’
No esgar ofuscado pelo sol, a criança olha para a avó. não percebe o que ela disse. mas os cabelos pretos debaixo de um lenço e a pele acetinada do rosto altivo da mulher deixam a impressão de que ela não pertencia à quele lugar. de que o caminho arrojado nos confins da planÃcie é um êxodo precário. que nem todos os caminhos são de pedra, de água, de ferro. de que o campo é o cativeiro que sustenta a solidão de quem quer viver num ermo. isolado do mundo e das luzes da cidade. foi talvez uma lamúria inofensiva. a voz embargada pela imagem de um apego inexistente. um sorriso dissimulado que se fixou na memória.
Só agora, ao fim de tanto tempo passado, percebemos o que ela quis dizer. o passo-a-passo na ilusão de ganhar terreno e vantagem presta-se a afundar sobre si próprio. que o futuro não é a caminhada triunfal da novidade permanente. assumir um rumo de propriedade singular não causa algum nexo para nós visÃvel entre a salvação terrena e o centro do mundo que somos. e nós somos como o animal tresmalhado do gado bravio a pastar nas ervas. não é o porte erecto e o olhar fixo do touro listrão que nos trava o medo da colhida letal. mas o chão que se move debaixo dos pés, mostra e esconde uma relação furtiva. o campo agreste é um paradoxo, um sistema de armadilhas. é adverso e generoso quando tira com uma mão o que deu com a outra. é o escondimento e o obstáculo. metamorfose e transfusão dos sinais que nos conduzem. para variar, a natureza é terrÃvelmente bela no palmilhar da distância percorrida pelo olhar. mas a proximidade vivida na carne, no osso e no tutano de que agora é para sempre, é a atitude de quem não passa da cepa torta. o tempo reconstruido dá um outro sentido ao mesmo acontecimento. a cidade é agora a última provÃncia. um claustro de multidão para quem os morangos crescem nas árvores. o reverso do mesmo sÃtio, do mesmo olhar. o lugar onde nos fixámos, esteja ele onde estiver, desmembrou-se na recordação.
© Miguel Pessoa Vidal / Cavalos no Gelo 2008